quem cria filhos pode gerenciar qualquer coisa (If You’ve Raised Kids, You Can Manage anything). essa ideia, que as mães empreendedoras colocam em prática todos os dias, é defendida por Ann Crittenden, jornalista e mãe americana, em seu livro ‘Liderança começa em casa’*, no qual demonstra como as qualidades que desenvolvemos na experiência da criação dos filhos são as mesmas exigidas em situações profissionais. por isso, defende a autora, ser mãe deveria ser um ponto positivo no currículo das mulheres, e não negativo, como ainda é visto por parte de muitos empregadores por aí.
com base em sua própria experiência e em entrevistas com quase cem pais, pessoas importantes das áreas de negócios, lei, governo, diplomacia, entretenimento e mundo acadêmico, Crittenden fala sobre como a criação de filhos:
- nos ensina a fazer várias tarefas ao mesmo tempo e a desenvolver a habilidade de agir em meio a constantes distrações;
- melhora as habilidades interpessoais, desde negociar de maneira efetiva até lidar com pessoas difíceis;
- nos faz desenvolver a habilidade de motivar e encorajar os outros;
- apura nosso senso de justiça e integridade, entre muitos outros benefícios.
a autora afirma que tais características podem e devem ser adicionadas ao curriculum vitae de profissionais que se dedicam ou se dedicaram aos filhos.
esta afirmação sinaliza um enorme avanço em termos de valorização e reconhecimento das experiências dos pais. e é a essa causa que Ann Crittenden se dedica, não só no mundo corporativo, mas na sociedade como um todo.
em seu livro ‘the price of motherhood’, publicado em 2004 nos Estados Unidos, Ann mostra que este reconhecimento e esta valorização não são só simbólicos. o assunto passa, também, pela questão financeira. trata-se do quanto uma mulher perde, em termos de garantias materiais, ao ter que abrir mão da carreira para se tornar principal responsável pelos filhos. ‘é preciso dividir os gastos de criar cidadãos preparados’, diz Ann.
as mulheres que têm filhos e continuam trabalhando são melhores mães e profissionais quando têm condições de trabalho que favorecem um equilíbrio entre ambas as funções e, mais do que isso, quando não se sentem diminuídas profissionalmente porque querem, também, ser mães.
segundo a visão de Crittenden, oferecer condições econômicas para que as mulheres possam exercer o trabalho de ser mãe, traz benefícios para toda a sociedade: ‘ao criar cidadãos saudáveis, curiosos, conscientes, as mães são pelo menos tão importantes para a segurança de um país quanto os soldados’, explica.
a valorização da maternidade depende ainda de muitas melhorias nas condições trabalhistas, modificações de leis e, principalmente, transformações sociais profundas. por isso, Ann Crittenden não apenas escreve livros. em 2003, ela criou o movimento MOTHERS – mothers ought to have equal rights. a organização reúne mulheres de diversas áreas com o objetivo comum de promover as mudanças sociais necessárias para que mães – donas-de-casa ou que se dividem entre trabalho doméstico e emprego fixo – tenham mais garantias de segurança e estabilidade econômica para desempenhar plenamente suas funções. o movimento vem ganhando força e já conquistou vitórias importantes. para Ann, a maior delas é fazer com que cada vez mais mães tenham consciência de sua real importância na sociedade.
pois a gente gostou tanto dessa história toda que resolvemos fazer contato direto com Ann Crittenden e conseguimos uma entrevista com ela. abaixo, você fica sabendo mais sobre o que pensa e o que faz esta ativista da maternidade, cujo trabalho e as ideias certamente servirão de inspiração para muita gente:
ciadasmães – nos seus livros, você afirma que a experiência da maternidade favorece o desempenho profissional das mulheres. e em relação, especificamente, ao empreendedorismo, isso se aplica também de forma positiva? acha que as mulheres que são mães têm mais chances de sucesso ao decidirem abrir e tocar um negócio próprio?
ann crittenden – Eu não acho que simplesmente ser mãe aumenta as chances de sucesso como empreendedora. Sou casada com um empreendedor e vejo que o ingrediente mais importante para o sucesso é a capacidade de trabalhar longas horas e de ser extremamente focado no negócio.
c – a Cia das Mães representa o movimento das ‘mães empreendedoras’ (‘mompreneurs’) no Brasil. você conhece este movimento? o que pensa sobre ele?
a – Adoro o site de vocês e o termo ‘mompreneur’! E acho que se for possível gerenciar o negócio apenas em determinadas horas do dia, sem a necessidade de viagens constantes, as mães são qualificadas para empreender, sim. Especialmente porque as mães, com certeza, sabem como administrar várias tarefas diferentes ao mesmo tempo, muitas vezes sob grande stress. Não é só questão de capacidade, mas de saber lidar com a pressão.
c – se o mercado de trabalho se adaptar às necessidades femininas durante a gravidez e primeiros tempos da maternidade, não acha que isso se refletirá em maior produtividade e qualidade das funcionárias mulheres?
a – Sim, definitivamente, os trabalhadores mostram-se mais produtivos quando são felizes na função que exercem e quando têm alguma liberdade para administrar suas horas de trabalho. Nós todos sabemos que muitos funcionários que trabalham meio período são mais produtivos do que os que passam o dia inteiro trabalhando. Isso porque eles perdem menos tempo no trabalho. E quando os pais têm licença remunerada (que deve ser para pais e mães) e flexibilidade, eles são mais fiéis ao seu empregador, há menos pedidos de demissão, que costumam custar bem caro para as empresas.
c – o que as mulheres podem fazer para estimular essa adaptação e mostrar à sociedade que serão trabalhadoras mais eficientes e realizadas se a maternidade for tão valorizada quanto a carreira profissional?
a – As mulheres podem organizar! É muito difícil qualquer mudança social sem algum tipo de movimento. Um movimento de mães que se organizem para exigir coisas como pensão básica para donas-de-casa, tratamento mais justo nos acertos de divórcios, leis trabalhistas que favoreçam quem tem responsabilidades familiares (como a possibilidade de trabalho em meio período com o mesmo valor pago por hora)… Isso ajudaria muito as mulheres!
c – o que quer dizer exatamente ao afirmar que as mães devem ter o mesmo status que os soldados?
a – Quero dizer que as mães e os soldados, ambos desempenham funções públicas vitais. Ambos estão servindo a seus países. Os soldados protegem a nação de inimigos externos e as mães a defendem contra inimigos internos, como a ignorância, a negligência, a criminalidade… Ao criar cidadãos saudáveis, curiosos, conscientes, as mães são pelo menos tão importantes para a segurança de um país quanto os soldados. E elas contribuem muito mais para a riqueza nacional. É por isso que devem ser apoiadas economicamente, para que possam fazer o melhor trabalho possível.
c – como surgiu o movimento ‘mothers ought to have equal rights’? quais resultados tiveram até agora?
a – O MOTHERS foi criado em 2003/2004. Nossa maior vitória está em fazer mais mães americanas terem consciência de sua importância e não se sentirem mais culpadas por serem ‘apenas donas-de-casa’. Este é um primeiro passo para a mudança. MOTHERS também inspirou a criação de grupos de defesa, como o ‘Moms Rising’ – grupo online que ajudou a aprovar a lei de licença maternidade no estado de Washington – e o ‘A Better Balance’ – organização fundada por mães e advogadas que estão impulsionando leis favoráveis à família no estado de Nova York. Elas conseguiram a aprovação de leis que dão mais proteção a trabalhadores domésticos, como remuneração em caso de doença, por exemplo. Houve também a conquista de várias disposições legais pró-maternas na reforma do sistema de saúde dos EUA no último ano.
c – como nós, mães brasileiras e empreendedoras, podemos participar e/ou colaborar?
a – As mulheres brasileiras podem certamente fazer tanto ou mais, formando seus próprios grupos e organizações de defesa, promovendo avanços que garantam às mães os recursos necessários para fazerem um bom trabalho na criação de seus filhos.
* livro ‘liderança começa em casa‘, de Ann Crittenden, editora Verus.












Adorei a entrevista, ainda mais porque mostra que apesar de estarmos “engatinhando” no movimento das mompreneurs, tenho certeza de que é só o começo de um caminho muito longo, mas muito feliz, não só para as mulheres, mas para as famílias em geral.
Digo e repito: as mães ainda vão comandar o mundo! E a Cia das Mães não me deixa mentir…rss!!!
Comentário por Tatiana Magalhães — 15 de março de 2011 @ 15:51
Tentei falar sobre isso numa entrevista de emprego para um entrevistadora mulher (sem filhos) e ela achou, digamos, engraçado. Vamos ver daqui a alguns anos (se tudo correr bem) ela vai entender meu ponto de vista, um tanto tarde é verdade, mas vai entender…
Comentário por Lili Ferret — 16 de março de 2011 @ 20:57
[...] aqui no blog um tempo atrás, que sempre vale a pena ser relido para ajudar nessas reflexões: maternidade no currículo. Comentários (0) Arquivado em: carreira — ciadasmaes @ [...]
Pingback por Cia das Mães — 7 de novembro de 2011 @ 17:57
Excelente entrevista! Espero que em breve este livro seja traduzido para o português! Parabéns Cia das mães pela maravilhosa entrevista.Um beijo,
Comentário por Simone de Carvalho — 7 de janeiro de 2012 @ 13:13