Matéria publicada na Folha de São Paulo em 13/05/2012
Roberta Martinho, com sua filha Pietra, criou um serviço noturno de babá. Foto: Alessandro Shinoda/Folhapress
O equilíbrio entre a vida profissional e o papel de mãe ainda é uma busca incessante para a maioria das mulheres que decidem ter filhos. Mas há quem encontre na maternidade a chave para unir as duas coisas.
Elas são as “mompreneurs”, corruptela de “mom” (mãe) e “entrepreneur” (empresário). O termo é utilizado nos países de língua inglesa para definir o empreendedorismo feminino, que, seja por necessidade ou por oportunidade, é um fenômeno crescente em todo o mundo.
No Brasil, a maior parte dos empreendedores ainda é de homens, mas a tendência é de crescimento entre as mulheres. Segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio) de 2009, 26,3% dos empregadores no país são mulheres.
Entre os novos negócios, no entanto, a porcentagem de mulheres é quase igual à de homens. Das empresas abertas em 2011, 48,62% têm mulheres à frente, aponta uma pesquisa feita pela FGV (Fundação Getulio Vargas) em conjunto com o IBQP (Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade) para a organização internacional GEM (Global Entrepreneurship Monitor).
Não existem estudos que apontem quantas dessas mulheres são mães. Mas esse número deve ser significativo, afirma Tales Andreassi, coordenador do FGVcenn (Centro de Novos Negócios da FGV), uma vez que “o empreendedorismo permite à mulher conciliar a carreira com os cuidados com os filhos”.
“A carreira não foi preterida, apenas ganhou uma nova forma. Trabalhando em casa ou em escritórios adaptados para receber os filhos, elas simplesmente romperam com os trabalhos-padrão para desempenhar a função de mãe”, diz a consultora Michelle Prazeres, 33, do blog Empreendedorismo Materno.
“Trabalhar em casa para economizar tempo de deslocamento e ter flexibilidade de horários passou a ser uma condição básica pra mim”, diz a jornalista e consultora Daniela Buono, 38, uma das sócias-fundadoras do site Cia das Mães. “Esse é um movimento cada vez mais forte e um sinal do surgimento de um novo perfil de mãe”, acredita Buono, que se inspirou nas filhas Clara, 7, e Bebel, 4, para criar sua empresa.

Daniela Buono é uma das sócia do site Cia das Mães. Foto: Guilherme Zauith/Folhapress.
‘Mompreneurs’ conectam-se na net
Mães empreendedoras trocam experiências e lançam produtos por meio de blogs e sites.
Conectadas no mundo digital, essas mães aproveitam as ferramentas tecnológicas para desenvolver e viabilizar suas ideias. Na rede, trocam experiências com outras mulheres que pretendem ou já se tornaram “mompreneurs”. Sites e blogs oferecem informações, serviços, dicas e produtos que podem semear o empreendedorismo.
Em 2010, a Cia das Mães trouxe para o mercado esse conceito. A empresa, que começou como uma loja virtual, conta com um canal de blogs, serviços interativos, compras coletivas e realiza eventos presencias para o segmento.
“Saí em busca de alternativas e descobri mulheres na mesma situação que eu. Veio a inspiração de reunir as mães empreendedoras brasileiras e criar um site”, conta Daniela Buono, 38. Ela e as sócias (e também mães) Roberta Marcinkowski e Katia Raele administram o site.
Projeto de mãe
Uma das participantes dessa rede na Cia das Mães é a Lorota, grife de objetos lúdicos para crianças. A artista plástica Juliana Coutinho Calheiros, 29, e a designer Karen Zlochezsky compartilhavam uma vontade comum: reorganizar a vida profissional em torno do projeto de ser mãe.
“A maternidade existe em nossas vidas há sete anos e, a Lorota, há três. Nós duas tínhamos o desejo de ter uma vida profissional sem abrir mão do convívio com as crianças. Por isso, foi espontânea a ideia do projeto”, conta a artista plástica. Para se organizar, as sócias marcam encontros durante a semana. Além disso, o escritório também “acontece virtualmente”, pois grande parte da exposição da marca e da demanda acontecem pela internet.
A consultora Michelle Prazeres, 33, criadora do blog Empreendedorismo Materno, oferece serviços semelhantes. Seu espaço virtual segue o conceito da Cia das Mães. A página promove campanhas para as “mompreneurs”, além de dar dicas. “Um dos pontos das nossas campanhas é o de valorizar o trabalho dessas mulheres e oferecer orientações para quem deseja começar”, afirma Prazeres.
Figurinista criou as peças que ela compraria
“Eu sempre soube que quando engravidasse teria de mudar de vida”, conta Giuliana Foti, 35. Ela trabalhou como figurinista de audiovisual por oito anos e suas jornadas eram de cerca de 12 horas -sem contar fins de semana e feriados. “Para quem tem um emprego com horário convencional já é muito difícil, imagine para quem trabalha dessa maneira.”
Como não queria que outra pessoa cuidasse de sua filha Olívia, de dois anos, Giuliana reinventou a vida profissional. Aproveitou a “expertise” que adquiriu fazendo figurino para adultos e criou a Nonino, marca de roupas infantis.
“Além de apaixonada por esse rico universo de descobertas, que é a experiência com a minha filha, pude perceber do que eu sentia falta [como mãe]. Achei que seria legal se existissem roupas mais confortáveis, sem babados e frescuras e que não custassem os olhos da cara.”
O negócio ainda está no início e Giuliana faz quase tudo sozinha -conta com a ajuda de uma costureira e do marido para assuntos domésticos. “A mulher moderna tem de lidar com essa questão. Foi necessário colocar na balança. Em um país em que a licença-maternidade é curta [entre quatro e seis meses], eu me vi obrigada a fazer essa escolha.”
Infância ‘perdida’ inspira projetos: ideias surgem de lacunas reais, como a falta de espaço para brincadeiras antigas
Logo após o nascimento de Pietra, hoje com um ano e dois meses, a produtora cultural e socióloga Roberta Martinho, 37, sentiu falta de um lugar de confiança onde pudesse deixar sua filha por apenas algumas horas para ir a um compromisso à noite, com o marido ou os amigos.
Ela precisava de um lugar onde a Pietra pudesse brincar com outras crianças e que, além disso, respeitasse seus hábitos educativos e alimentares. “Eu estava brincando com ela quando tive a ideia. Criei a BobBabá, que oferece esse tipo de serviço.”
Sua casa é completamente adaptada para crianças. Na sala espaçosa de seu apartamento, na Vila Mariana (zona sul), ficam expostos vários tipos de brinquedos. Tudo é feito para garantir a segurança dos pequenos. “O espaço é gostoso e minha filha adora receber visitas”, diz Martinho.
Ela conta que procura conciliar a nova atividade com a profissão de produtora, que desempenha em casa, enquanto a filha está na escola. “Adoro o que faço, mas desde que Pietra nasceu, veio a vontade de desenvolver algo ligado ao universo infantil.”
O serviço especial de babysitter é oferecido de segunda à sexta-feira, a partir das 18h. “Pensei em um negócio que seja importante para outras mães e que possibilite, por exemplo, momentos a sós com seus maridos, como sair para jantar ou ir ao cinema”, completa.
Como antigamente
A artista plástica Natália Brown, 32, do Recife (PE), incomodava-se com a maneira com que sua filha Luisa, 9, estava crescendo, muito diferente do seu tempo de criança. “Eu brincava na rua, no quintal, ia a pé para escola. Hoje, moro em um condomínio onde não há outras crianças. Além disso, se ela for descer para brincar, tenho que acompanhá-la, pois não acho seguro deixá-la sozinha”, diz.
Outro fator que incomodava Brown era que Luisa poderia gastar muito tempo na frente do computador ou da TV. Foi então que decidiu, com outras amigas, criar o projeto Tardes de Quintal, que promove oficinas de arte e brincadeiras antigas, como amarelinha e pique-esconde, no quintal da Galeria MauMau, espaço de cultura alternativa na capital pernambucana.
“A maioria das crianças não tem mais acesso a um quintal para brincar de maneira saudável e lúdica”, diz Brown.
Mas nem tudo é encantado na jornada das mães empresárias. Tocar um negócio próprio é também uma espécie de maternidade e conciliar as duas, apesar de as rotinas coincidirem em alguns casos, não é simples.
“Antes de empreender com filhos por perto, é fundamental ter o apoio de pessoas próximas, porque o trabalho será sempre maior do que se imagina. Principalmente no início, quando os recursos são escassos”, afirma Daniela Buono. “A empresa será gestada, parida e alimentada como um segundo ou terceiro filho, mas não é um ser humano. É necessário medir constantemente os resultados e planejar os próximos passos. Se não conseguir, vale procurar um mentor ou consultor.”