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8 de maio de 2011

quem é a mãe contemporânea?

neste dia das mães, publicamos entrevista feita pelo site da Revista do Instituto Humanitas Unisinos com o psicólogo e doutor em Educação Alfredo Jerusalinsky, que revela um olhar realista e moderno sobre a mulher e mãe dos tempos atuais. observações e constatações que nos ajudam a entender as mudanças, os avanços, os conflitos que nos fizeram chegar até aqui. nós, mães contemporâneas: quem somos? como a sociedade nos vê? como nos vemos? vale ler e refletir!

Mãe e mulher não são sinônimos

Na visão contemporânea, a mãe parece mais uma parceira dos filhos do que a figura clássica de uma serviçal que está completamente à disposição da família, afirma Alfredo Jerusalinsky

Por: Anelise Zanoni

Com as constantes mudanças na sociedade, os perfis de mãe e de mulher também estão em mutação. Nesse novo papel, a progenitora aceita menos os sacrifícios, de acordo com a opinião do psicólogo e doutor em Educação Alfredo Jerusalinsky, que falou por e-mail à IHU On-Line.

“Situada numa posição mais simétrica no governo da família, sua palavra, ora tão portadora de saber quanto à do homem, não mais precisa se oferecer ao martírio da submissão para amortecer o rigor de uma rígida lei patriarcal ameaçando se abater sobre os filhos”, diz o especialista. Para ele, por acréscimo, a posição de parceira e confidente – mais característica da mãe contemporânea – encurtou as distâncias que caracterizavam as relações entre os jovens e as mães excessivamente moralistas.

Além disso, o atual cenário permite à mulher se tornar protagonista de vários universos, como o intelectual, o acadêmico e o profissional. “Se, por um lado, isto aumentou significativamente seu grau de liberdade, ao mesmo tempo, a deixou fortemente implicada nas consequências que suas decisões terão sobre seu destino”, avalia o psicólogo.

Doutor em Educação e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo – USP e mestre em Psicologia Clínica, Alfredo Jerusalinsky lecionou na Universidade de Buenos Aires e atualmente é psicanalista Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre – APPOA, da Association Lacaniènne Internationale – ALI e do Grupo de Estudos Sigmund Freud – SIG. É também professor convidado na Universidade de Fortaleza – Unifor.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Muitas mulheres ainda acreditam que a maternidade é realmente o caminho para a felicidade?

Alfredo Jerusalinsky – A globalização, que até o momento está somente efetivada nos planos financeiro, das informações, do comércio e do consumo, nos transportes e nas comunicações, ainda não demoliu as barreiras culturais. Por isso, não é adequado generalizar quando falamos sobre “as mulheres”, já que elas, vítimas históricas da opressão masculina, encontraram formas de retenção de uma porção do poder se apossando de pequenos traços de valor emblemático em cada uma de suas respectivas culturas. Fitas coloridas, brincos e piercings, tatuagens, bordados, penteados, maquiagens, burcas, véus, lenços e batons, pentes decorados, molhos e temperos, perfumes e texturas, culinárias e tapetes, mobília e decorados, em cada povo assumem combinatórias diferentes e são essencial e sub-repticiamente governados pelas mulheres. Esse reino sutil que se chama “lar” e que constitui o cenário no qual se desdobra a maternidade não é um reino uniforme. O quanto em cada cultura a maternidade continua a ser uma fonte de valorização e dignificação da mulher – ou seja, fonte de felicidade – é, hoje em dia, extremamente variável. A globalização, em lugar de uniformizar, tem trazido à tona esses contrastes. A fertilidade feminina hoje não é igualmente celebrada em todas as latitudes.

IHU On-Line – Como podemos avaliar, de modo geral, a mãe contemporânea?

Alfredo Jerusalinsky – Certamente é uma mãe menos sacrifical que a mãe clássica. Situada numa posição mais simétrica no governo da família, sua palavra, ora tão portadora de saber quanto à do homem, não mais precisa se oferecer ao martírio da submissão para amortecer o rigor de uma rígida lei patriarcal ameaçando se abater sobre os filhos. A mãe contemporânea parece mais uma parceira dos filhos do que a figura clássica de uma serviçal.

IHU On-Line – As angústias que acompanham a mãe moderna estão muito relacionadas à liberdade delas de poder viver bem a vida e investir na profissão. Como combinar esses desejos com a maternidade?

Alfredo Jerusalinsky – Se entendermos “mãe contemporânea” como essa mulher que se situa na dobradiça entre a modernidade e a pós-modernidade (entre a prevalência da racionalidade e a supremacia do gozar), ela se encontra em pleno conflito entre ser mulher e ser mãe que, atualmente, não são sinônimos.

Durante a modernidade – nas comarcas que essa era transformou – a mulher adquiriu progressivamente o poder de governar suas escolhas amorosas e sexuais. Por acréscimo, a mulher – no mundo ocidental – tem se tornado protagonista dos universos intelectual, acadêmico e profissional. Se, por um lado, isto aumentou significativamente seu grau de liberdade, ao mesmo tempo a deixou fortemente implicada nas consequências que suas decisões terão sobre seu destino.

É lógico, então, que, se os níveis de angústia aumentassem, o sujeito feminino tentaria evitar a disjuntiva da escolha, levando adiante diferentes formas de realização em paralelo. Por exemplo, a realização materna e também a profissional de forma simultânea. Mas nem todas as mulheres têm recursos, apoio familiar e condições estruturais que as permitam articular uma empreitada semelhante. Nesses casos é comum que uma sensação de injustiça se faça presente durante o exercício da maternidade, na medida em que a mulher possa vir a se sentir vítima de uma dupla imposição em lugar de perceber que ela ficou presa às consequências de sua própria escolha.

IHU On-Line – Quando a mulher se depara com o papel de mãe pode haver uma grande crise de identidade?

Alfredo Jerusalinsky – A pergunta já assinala que há um corte entre “a mulher” e “o papel de mãe”. Não é um corte que tenha existido sempre na mesma intensidade. Sigmund Freud chegou a considerar que a maternidade era a realização mesma da feminilidade. Ocorre que durante séculos (incluindo aquele em que Freud viveu) o único recurso de validação social e subjetiva de sua existência era, para a mulher, ser mãe. Porém, a grande virtude da posição freudiana foi de perceber que o filho, por constituir-se num emblema fálico, passava a ter condição de fetiche para sua mãe. Essa descoberta continua válida, embora o filho deva, na atualidade, dividir a devoção materna com outros fetiches da cultura.

Se não houver uma crise de identidade é porque a mulher em questão não realizou a virada necessária para assumir a condição de mãe: o fetiche, em lugar de ser seu próprio corpo, precisa passar a se encarnar no corpo do filho. Trata-se de uma virada narcísica que é, precisamente, a que lhe permite suportar a desfiguração de seu próprio corpo, não sem passar – como é habitual – pela depressão puerperal.

IHU On-Line – A infância e a adolescência estão cada vez mais diferentes do que eram. Além da influência das tecnologias, o papel da mãe contribui para novos comportamentos?

Alfredo Jerusalinsky – É um lugar comum a sentença de que hoje as crianças crescem mais rapidamente, são mais inteligentes, mais sábias, aprendem de forma mais rápida, são mais espertas bem mais cedo que antigamente. Se Donald W. Winnicott tem razão – e nós pensamos que a tem – em que é a mãe quem apresenta o mundo para seu filhote, e isso se verifica em que o bebê olha na direção para onde o olhar de sua mãe se dirige (isto claramente acontece já aos oito meses de idade), devemos assinalar que as mães atuais têm muito mais alvos que capturam seu olhar comparadas com as de antigamente. A diversificação de objetivos na vida feminina conduz a curiosidade de seus filhotes desde muito cedo para as variedades de objeto oferecidas pelo mundo circundante. Temos aí a razão de certa precocidade na posição infantil atual.
No que se refere aos adolescentes, a posição de parceira e confidente mais característica da mãe contemporânea encurtou as distâncias que caracterizavam as relações entre os jovens e as mães excessivamente moralistas, formais e transmissoras dos “bons modos”, típicas das tradições patriarcais.

IHU On-Line – Na nova versão da maternidade o papel do pai fica, muitas vezes, ofuscado. Qual o significado dessa relação homem/mulher na sociedade contemporânea?

Alfredo Jerusalinsky – Os movimentos feministas (que exigiram duras lutas políticas), as demonstrações de capacidade laboral e intelectual diante a demanda social (originada nas revoluções industriais), o reconhecimento de sua aptidão para o desejo e o gozo sexual (contribuição da psicanálise), o enfraquecimento dos preconceitos religiosos (a mulher deixou de ser a representante do mal essencial), a transformação dos princípios jurídicos de gênero (equivalência de direitos), elevaram a mulher a um plano de igualdade com o homem. Nesse processo, que se desdobrou especialmente durante os últimos 150 anos, o homem perdeu os privilégios que lhes eram garantidos pela assimetria simbólica que regrava as relações entre o masculino e o feminino. Moldado sobre esses privilégios, o patriarca da família clássica, exercia uma autoridade quase omnímoda sobre o clã familiar. Seu saber era incontestável e ele era ao mesmo tempo juiz e legislador. Todos os desejos dos outros ficavam subordinados ao dele.
Durante certo período (talvez durante grande parte do século XX) o pai de família reagiu enraivecido diante o que ele vivenciou como uma destituição e partiu para a violência contra sua mulher. Leis como a famosa “Maria da Penha”, o surgimento da figura policial da “Delegacia da Mulher”, demonstram o quanto foi necessário proteger a mulher durante sua elevação para uma condição de igualdade. Paradoxalmente, essa ascensão determinou que seus novos poderes ficassem associados à sua antiga debilidade causando privilégios inversos do lado feminino. A figura psicológico-jurídica de alienação parental veio para ser aplicada especialmente contra a negativa materna a permitir o convívio do pai com seus filhos quando produzida uma separação conjugal.

A nova configuração familiar se apresenta como um cogoverno compartilhado entre a mãe e o pai que não poupa o lado masculino de um sentimento de perda de poder. Num outro viés dessa complexa questão, de fato se registra um declínio da função paterna no sentido de uma debilidade progressiva das expressões simbólicas da cultura cedendo seu lugar para o gozo do imaginário. Os homens se queixam do declínio de uma função que era suposta como uma propriedade do masculino, mas pouco fazem para restituí-la quando consomem seus esforços em reclamar pela perda de seu antigo lugar pessoal.

IHU On-Line – Atualmente, o que significa para uma mulher e para a sociedade ser uma mãe adotiva?

Alfredo Jerusalinsky – Hoje em dia a maternidade se define muito menos pela progenitora biológica do que pelo laço afetivo entre uma mulher e uma criança. Embora a pertença biológica continue a gerar obrigações e direitos, o âmbito jurídico tem aberto suas considerações para a importância dos vínculos baseados na reciprocidade amorosa e nas nuanças das identificações primárias. O desaparecimento das figuras sociais degradantes ligadas às “origens bastardas”, a legitimação jurídica dos laços de parentesco adotivos e a relativização da autenticidade materna ligada ao modo tradicional da fecundação, têm aberto caminhos de maior liberdade e flexibilidade para a mãe adotiva não mais se sentir uma mãe de segunda categoria. Consequentemente, os filhos adotivos também não mais precisam se sentir filhos de segunda classe.

(imagem: ‘mother and child’ de Gustav Klimt)


Filed under: dia das mães,mulheres,reflexões — ciadasmaes @ 12:27

3 de maio de 2011

mãe não é tudo igual! ainda bem…

sabe aquele velho papo: ‘mãe é tudo igual, só muda o endereço’? quando a gente vira mãe, percebe que tem um pouquinho de verdade nisso mas que por outro lado, é uma mentira bem grandona. sim, as mães muitas vezes compartilham das mesmas angústias, corujices, emoções, dramas, delícias etc, mas quando a gente passa a conviver intensamente com várias mães percebe que o que existe é uma diversidade enorme…

se antigamente as mulheres viviam cercadas de suas mães, avós, irmãs, primas, vizinhas e tinham nesse grupo a fonte principal de conhecimento para se ‘formar’ como mãe e mulher, hoje as mulheres têm um mundo de informação ao alcance de um clique.

é ruim termos perdido um pouco dessa coisa ‘raiz’, da convivência física com os clãs, com as famílias que antes eram enormes e viviam mais próximas e que hoje são menores e vivem mais distantes por motivos que a vida moderna nos impõe.

mas ao mesmo tempo, a era da internet e do mundo social virtual nos trouxe a possibilidade de entrar em contato com pessoas muito diferentes de nós, ter acesso a informações que talvez não nos chegariam de outras formas… e isso é muito bacana!

na blogosfera, nas comunidades e grupos virtuais, nas redes sociais pipocam todos os dias novos debates sobre temas da maternidade. debater explicita diferenças e às vezes provoca conflitos, gera rupturas, causa mal estar. mas é assim que a gente cresce e amadurece, não é?

um tempo atrás acompanhamos uma blogagem coletiva sobre um tal de ‘bullying materno’, tema que foi pauta de uma reportagem no Estadão, gerou mil polêmicas e muitos blogs acabaram escrevendo e debatendo a respeito. o resultado, no final, foi um montão de conteúdo bem rico, muita reflexão produtiva e positiva.

nesse post do blog ‘vinhos, viagens, uma vida comum e dois bebês’, por exemplo, a autora criticou com toda razão a construção irreal que a mídia faz da maternidade; no final do post ela faz uma listagem enorme de vários outros blogs que também participaram da blogagem coletiva.

mas agora, cá entre nós… bullying?! esse termo nos soou um tanto quanto estranho e até meio dramático dentro desse contexto ‘maternidade na internet’. será mesmo que defender uma opinião e discordar do outro é agredi-lo diretamente? será que a diversidade de opiniões e pensamentos não serve a nós, mães, justamente como estímulo para olharmos para as nossas próprias opiniões e nossos próprios pensamentos, refletir, repensar, às vezes até mudar de ideia – o que é tããão legal! – ou mesmo ter mais certeza daquilo que achamos certo ou errado?

ou, ainda, o mais provável é chegar à conclusão de que cada pessoa, cada mãe, dentro do seu estilo de vida, dentro das suas crenças e conhecimentos, pode decidir que algo é certo, mesmo que para outra mãe aquilo seja errado. e não há problema nenhum nisso. viver e conviver com a diversidade… não é isso o que queremos tanto ensinar para os nossos filhos?!

ainda dentro da blogagem sobre o tal do ‘bullying’, o desabafo de mãe fez um post ótimo, no qual fala exatamente da intensidade que nos acompanha nesse crescimento e amadurecimento através da convivência com outras mães, dos questionamentos internos que tudo isso causa e como muitas vezes acaba havendo tensões onde não precisaria haver (ou precisaria, vai saber…).

aqui na ciadasmães a gente acha muito bacana conseguir juntar vários estilos de mães diferentes. e agora, no mês das mães, nossa vontade é justamente a de celebrar essa diversidade incrível que, ao mesmo tempo, é responsável pelo fortalecimento da identidade de cada uma. no fim, a gente percebe que a maternidade ativa é isso… são mulheres de todos os tipos, com mil diferenças, mas que têm algo em comum: são protagonistas na sua vivência da maternidade e questionam sempre, suas escolhas, suas opções, seu mundo ao redor…

para homenagear essa multiplicidade de mulheres e mães que nos cercam, fizemos uma brincadeirinha e montamos kits com sugestões de presentes de Dia das Mães para diferentes perfis (futura mãe, mãe moderna, mãe clássica, mãe romântica…). são só algumas ideias, você pode se identificar ou não. mas com certeza se der uma ‘voltinha’ na nossa loja virtual vai encontrar muitas coisas que combinam com você, com seu estilo de maternar e de ser mulher…

a ciadasmães deseja a todas um feliz dia das mães!


Filed under: dia das mães,reflexões — ciadasmaes @ 12:00