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17 de agosto de 2010

Brincadeira é mais que brinquedo

Todo mundo sabe que para as crianças brincadeira é coisa séria. E para mim também!

É através dela que os pequenos aprendem, experimentam, vão descobrindo a vida e colocam em prática o que vivem no dia-a-dia. Para nós, pais e mães, é um ótimo momento de integração (onde nos aproximamos um pouco mais do universo deles), de entrega (temos que parar um pouco com os nossos milhões de afazeres e nos dedicar àquela atividade) e de desprendimento (temos que nos permitir ser crianças novamente, sem as vergonhas da vida adulta, sem o medo do ridículo, afinal, brincadeira é uma pagação de mico total!).

Além disso, com um olhar mais atento vamos acompanhando o desenvolvimento dos filhos, seus avanços diários de aprendizagem na fala, locomoção, controle motor, novos interesses e principalmente, nas relações afetivas e sua visão de mundo.

Desde cedo curto apresentar ao meu filhote brincadeiras que eu constumava fazer na infância e que não precisam de brinquedos, ou usar coisas inusitadas e transformá-las em brincadeira. Além de incentivar a criatividade do pequeno, isso já me tirou de diversas saias justas onde tinha que distraí-lo, mas não havia nada à mão.

Hoje em dia ele adora jogos. De todos os tipos: de palavras, de adivinhação, trava-língua, musicadas, além de inventar as suas também. Lembro bem da primeira vez que ele jogou Mico, aquele jogo que perde quem fica com a carta sem par. Assim que ele entendeu isso a reação foi instantânea: querer se livrar do mico logo que ele aparecesse na sua mãozinha. Depois começou a ficar chateado por estar perdendo e por fim, não queria mais jogar. Já vi diversas crianças, e adultos, com essa mesma atitude. Uma das primeiras lições que tentei ensinar para ele foi a de aprender a rir de si mesmo e a se divertir ganhando ou perdendo. Consegui fazer com que ele curtisse a emoção da surpresa, o suspense do andamento e as as situaçõese divertidas e engraçadas do jogo fazendo com que ganhar ou não seja o que menos importa. Eu ganhei e perdi muitas vezes. Ele também. E não jogamos no esquema “café com leite”, não! Quando ele me vence é pra valer!

Costumamos passar ótimos momentos nessas brincadeiras. Pode ser numa viagem mais longa, num almoço demorado num restaurante, enquanto esperamos no pediatra, tanto faz. Ele mesmo já sugere a brincadeira. Muitas vezes outras crianças em volta acabam se interessando e se juntando a nós, o que traz mais uma vantagem: a socialização, já que ele não é de chegar e ir logo fazendo amizade.

Não é bem melhor do que um brinquedo caríssimo com milhões de luzes piscando e botões fazendo sons irritantes que eles brincam 5 minutos e não ligam mais? Muito mais econômico para os pais e um aprendizado que vai seguir com eles a vida toda.

Como eu acho que a prática vale mais do que mil palavras, vou dar alguns exemplos de brincadeiras que costumamos fazer. Uma delas é a do mico, que falei acima. Existem no mercado vários baralhos com esse joguinho mas ele pode ser jogado com qualquer baralho, desde que se deixe uma carta sem par. Lembrando disso, já cheguei a adaptar até saquinhos de sal em mesa de restaurante para fazer a brincadeira. Foi só fazer marcações com desenhos duplicados – dois triângulos, dois retângulos, letras, números, desde que sejam em par – num dos lados dos saquinho e voilà: cartas prontinhas para serem usadas para mico ou jogo da memória!

Numa outra vez, usei os objetos que estavam sobre a mesa da pizzaria para ensinar aos dois pequenos que estavam com a gente – um com muito sono para esperar a comida e o outro irriquieto demais – a jogar escravos de Jó. Brincadeira mais antiga, impossível! E deu o resultado que os adultos queriam: mantê-los acordados e calmos.

Começar uma história para o outro continuar, faz muito sucesso com o meu filho, e essa não precisa de nada além de imaginação. Quanto mais insólita a continuação, melhor. Ótima pra viagens! Como variação dá para escrever diversas palavras em papeizinhos ou fichas para os já alfabetizados ou desenhar ou colar imagens para os que ainda não sabem ler, e à medida que são sorteados vão dando continuidade à história. A própria criança pode participar da confecção do jogo escrevendo as palavras, desenhando ou procurando, cortando e colando imagens nas fichas. Além de garantir boas risadas ainda proporciona momentos de concentração.

Perfeita pra grandes e pequenos exercitarem a atenção e a memória é aquela em que um diz uma palavra, o outro repete e acrescenta uma nova e assim sucessivamente. Perde quem não conseguir lembrar a sequência. Para dar um charme a mais na brincadeira, faço como aprendi em criança dizendo “Fui à Bahia e comprei…” Cada um completa com quiser e começa a diversão.

E como a vida é um aprendizado contínuo, acabei de conhecer uma brincadeira nova: um fala uma palavra, a próxima pessoa fala outra que lhe vem à cabeça que seja ligada à primeira e vai até o infinito. O divertido é perceber como cada um faz suas próprias associações, sempre inusitadas e imprevisíveis.

Talvez para muitos adultos essas atividades pareçam simplórias, infantis demais. Mas observo, que algumas crianças não acompanham as brincadeiras pois não conseguem se concentrar ou entender como elas funcionam. Alguns desistem ao primeiro sinal de dificuldade ou necessidade de raciocinar. Me dá a sensação de que recebem tudo pronto, mastigado, o tempo todo. Então, será que essas atividades são tão simples assim?

Eu vou continuar acreditando que brincadeira boa é a que dá “trabalho” para as crianças. Seja para inventar, construir, armar, decifrar, materializar o que se quer fazer. E falo isso por experiência própria, como um adulto que se divertiu muito com esse tipo de brincadeira na infância e agora, como mãe, pode exercitar com meu filho todo esse aprendizado. E vamos combinar, tem coisa melhor para quem já passou da idade do que esse passaporte de volta à infância nem que seja por alguns momentos do dia? Melhor do que qualquer terapia! Garanto!

Eliane Ceccon é designer, uma das autoras do blog 1001roteirinhos e mãe de um molequinho de 4 anos que diz que vai ser cientista, professor de artes marciais, capoeira e natação, mas que por enquanto é só super-herói, ninja e samurai mesmo.

Adora programas culturais e contato com a natureza. Acredita que a melhor maneira de educar é através da alegria e diversão.

Ainda tem a idéia romântica de que o ser humano pode ter jeito.

Acha que pode fazer muito pouco para melhorar o mas tenta ser alguém melhor a cada dia.

Pensa que passar esses valores ao seu filho é uma das suas contribuições para mudar as coisas.

E tem coisa melhor do que fazer isso e ainda se divertir?


Filed under: — ciadasmaes @ 7:39

1 Comentário »

  1. Muito bacana este post. Concordo plenamente com a Eliane e tb não sou à favor de mil brinquedos caros e da moda -e como a filhota é pequena isso ajuda, pois ela tb não pede nada…!-. Mas realmente, educar dá trabalho, inventar brincadeiras tb, ms é mais prazeroso e mais educativo para eles!
    Bjs, Sut-Mie

    Comentário by Sut-Mie- Viajando com Pimpolhos — 17 de agosto de 2010 @ 19:42

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