um relato muito bacana sobre amamentação, publicado originalmente em forma de entrevista, no blog menu do bebê, da nutricionista Erika Berbert. uma história de dedicação e realização, que pode ajudar e inspirar outras mães (de gêmeos ou não), na sua experiência de amamentar.
por Vanessa Dolce Faria

Eu tive o Caio e o Nuno na Argentina. Acho importante dizer isso logo de entrada, pois a orientação em geral por lá, a exemplo de países europeus, é muito diferente da que infelizmente vemos hoje ocorrer no Brasil, onde há forte medicalização de atos fisiológicos como parto, gravidez e amamentação, para não falar no número absurdo de cesáreas, na arrogância médica em encurtar a gravidez (raramente alguém consegue chegar a termo, logo começam “problemas” para os quais se indica a cesárea) e por aí vai.
Na Argentina, a possibilidade de uma gravidez gemelar chegar a cabo e de uma grávida de gêmeos ter parto normal (não foi o meu caso, mas se tentou parto normal até o final, e tenho várias conhecidas que tiveram parto normal gemelar) não eram coisas “de outro mundo”. Eu não tive restrições alimentares, de exercício; tinha sim orientações que eram todos de bom senso, nada mais que isso. A minha gravidez não foi encarada como doença, mas como algo normal, natural. A única coisa que eu tinha de fazer com mais frequência que uma grávida de um filho só eram os ultrassons.
Minha obstetra pediu repouso relativo a partir da semana 32. Era o procedimento pradrão dela em casos de gravidez gemelar. Os meninos são bivitelíneos, e por isso a preocupação era bem menor que em uma gravidez em que se compartilha plancenta e bolsa. Foi quando eu entrei então de licença médica. Parei de trabalhar, de nadar e de fazer ioga. Trabalhar o dia todo estava de fato pesado para mim. Eu tive uma gravidez saudável, e achei esse período de repouso muito chato. Por outro lado, fui tomada por uma enorme tranquilidade nesse período final, e atribuo isso ao repouso relativo que fiz. Pude me dedicar bastante à Eutonia, que é a prática à qual devo meu bem-estar, físico e psíquico, na gravidez. E pude me organizar bem para a chegada dos meninos.
Sobre a Eutonia, tivemos em Buenos Aires o privilégio de descobrir e conviver com a Frida Kaplan, que sistematizou um método de parto e nascimento eutônicos. A minha preparação consistiu basicamente em fazer as aulas em grupo dessa técnica. Devemos muito à Eutonia e à Frida em especial. Não tinha dores no corpo nem no espírito. Respirava, comia e dormia muito bem até o final. A Eutonia é realmente genial.
Me lembro que a Frida começava as aulas perguntando a data de parto a cada casal. A gente sempre explicava que a data de 40 semanas completas seria 8.8.2008, mas que era gemelar e por isso talvez nao chegasse, então dizíamos julho, junho…e ela sempre reforçava que a data era sim a data de 40 semanas, até que eu fui começando a responder isso desde sempre, internalizei de vez a possibilidade. E a possibilidade virou realidade. Foi o que ocorreu, eles nasceram nessa data. A Frida vale mais que mil terapeutas de todas as classes, médicos e psicanalistas juntos.
Eu nunca duvidei que amamentaria meus filhos exclusivamente no peito. Antes de eles nascerem, começamos uma busca por um/uma pediatra com quem tivéssemos afinidade. Estivemos com 4, todos bons, mas todos diziam coisas como amamentar gêmeos era “praticamente impossível” e por aí vai. Não demos bola. Finalmente, achamos um pediatra, o 5o que visitamos, que disse de cara que claro que sim, que era possível amamentar gêmeos. Eu queria um médico ou uma médica que corroborasse minhas decisões, e achei este, Dr Julio Cukier, que era um senhor de grande reputação em Buenos Aires, e de uma prática de pouca intervenção. Foi uma parceria perfeita.
Eu não tive uma orientação específica para amamentar. No hospital, veio uma puericultora, mas era tanta confusão e tanta gente falando na sua cabeça que aquilo na verdade não me serviu, não. No entanto, um tempo antes de eles nascerem, num curso pré-parto que fiz (era obrigatório o acompanhamento de uma parteira durante a gravidez), diante da histeria coletiva com o medo das futuras mamães de não conseguir amamentar, eu tive uma sacada importante: senti que amamentar era um ato de amor, de doação, e que acharia meu caminho junto das crianças quando eles nascessem -sem muito auê, sem livros, sem aulas com ninguém. Com recolhimento, concentração e dedicação. Foi exatamente assim que rolou.
Os meninos nasceram com 2,5 kilos cada. No começo, o pediatra os pesava com bastante frequência, pois queria ter certeza de que estavam subindo de peso. Acho que nos primeiros 10 dias de vida eles devem ter sido pesados umas 4 vezes. E o peso subia. Também, eu não tirava os dois do peito! Acho super importante amamentar por livre demanda pelo menos no começo, para garantir a provisão de bastante leite. Depois as coisas entram num ritmo em que o corpo já se acostumou à demanda. A oferta é totalmente proporcional à demanda. Tem de deixar mamar bastante para produzir bastante leite.
Como eram nossos primeiros filhos, a gente ficou bem neurótico com essa questão do peso. A gente anotava numa caderneta quem mamou em cada peito (porque trocava, a cada mamada, de peito e de filho) e por quanto tempo. Eu me lembro que durante muito tempo eu tive “livre”, para mim, menos de uma hora entre as mamadas. Ou seja, nao fazia mais nada a não ser dar peito mesmo. Mas eu estava disposta a viver isso assim. Foi uma escolha minha. Apóio quem quer tentar amamentar assim, e apóio igualmente quem escolhe diferente, quem não quer ficar “presa” amamentando dessa forma. Não gosto e não concordo com a pressão que as mulheres sentem, se impõem e muitas vezes reproduzem. Eu amamentei 1 ano e quando quis parar de dar peito, senti culpa (mas banquei e parei de dar).
Nós mulheres carregamos muitos fardos, muitas expectativas. Temos de ser livres para descobrir, cada uma, nosso caminho único na maternidade.
No primeiro mês, eles mamavam ao mesmo tempo, cada um num peito. Especialmente de madrugada. A gente quase nao dormia mesmo, demorou muito para eles dormirem umas 6 ou 7 horas seguidas, os dois – isso só foi acontecer quando eles tinham uns 8 meses, e foi um alívio enorme. Bem, voltando ao lance de dar peito simultaneamente aos dois, eu fui vendo que não dava muito certo logo que eles cresceram um pouquinho. Por mais que fosse mais cansativo, cada um passou a mamar sozinho, na sua vez. Eu sempre botei um para mamar na sequência do outro (pedisse o outro ou não), porque assim organizava minimamente as coisas. A gente sempre buscou construir, desde o começo, rotinas, que mantemos até hoje.
A ajuda de uma especialista em lactação foi importante quando eu voltei a trabalhar, aos 5/6 meses, e tive de introduzir a mamadeira. Nenhum dos dois, claro, aceitava. Foi super difícil. Meus peitos jorravam leite e eu tinha de acostumá-los com a mamadeira. Tive mastite duas vezes, até que fui a um hospital conversar. Aí tive orientação de uma especialista, que me ensinou como tirar paulatinamente o peito. Os meninos finalmente aceitaram a mamadeira, mas com 8 meses tomavam leite (de fórmula) no copo. A mamadeira foi um recurso provisório, entre o peito exclusivo (até os 6 meses) o e copo+peito (a partir do oitavo mês). Não quis usar a máquina de tirar leite. Já que ia diminuir o peito, quis a liberdade do leite de fórmula. Mamaram no peito até 1 ano, quando eu decidi parar e tirei o peito. O Nuno já quase não mamava, mas o Caio mamava e muito. Acho que se deixasse ele mamaria até hoje rsrsrs.
Eu não amamentei o Caio e o Nuno. Nós [eu e meu marido Fernando] amamentamos. Ele parou de trabalhar e ficou por conta durante o primeiro ano de vida deles. Sem dúvidas, esse foi um fator central.
Nos primeiros dois meses após o nascimento, que foram os meses mais difíceis, eu fiquei muito arredia, tristonha, fechada no ninho, querendo ficar a sós com os bebês (nao queria saber de visitas, de confusão). O fato de que ele estava lá, sempre por perto, foi muito importante, me dava segurança. Quando voltei a trabalhar aos 5/6 meses, ele cuidava sozinho dos meninos. Um gênio da espécie masculina. Fomos ter babá quando os meninos fizeram 1 ano – e sempre de dia, nunca tivemos ajuda noturna ou nos finais de semana. Como vivemos no exterior, longe das famílias que sempre dão uma mão, foi super cansativo, não tivemos vida social por muito tempo, brigamos muito por cansaço, a nosso vida de casal ficou de lado, mas essa fase mais dura passa – passa! Por outro lado, esse tipo de dedicação que tivemos gerou uma segurança grande na gente, e uma proximidade muito especial com as crianças. E tudo isso começou, acho, com a opção de amamentação que fizemos.
Acho que especialmente para quem nunca teve filhos e vai começar com uma duplinha, o importante é confiar em si: acreditar na nossa capacidade de amar, de procriar, de criar… e não dar bola para palpites que aterrorisem, que assustem, se afastar de quem diz que você nunca mais vai dormir ou absurdos assim rsrsrs.
Pode valer a pena conhecer outras histórias (se forem positivas), ler algumas coisas ou fazer algum curso, mas não é essencial. O essencial está na gente, e cada casal constrói o seu caminho.













Amei o post!Estou grávida de gêmeos(34 semanas) e desde o ínicio tenho buscado muitas informações sobre amamentação.
Apesar de muitos “contras”, acho que o que realmente vai definir se conseguiremos ou não amamenta-los é a nossa disposição, carinho, desejo de doar-se.E isso eu tenho de sobra, graças a Deus!rs
Estamos super ansiosos para a chegada do Edgard e do Emanuel.
Comentário by Aline — 4 de abril de 2012 @ 19:14
bacana, Aline! uma boa hora pra você e boa sorte com a amamentação dos meninos! beijos! ; )
Comentário by ciadasmaes — 5 de abril de 2012 @ 20:51
Lindo demais o depoimento da Vanessa!! Estou grávida pela primeira vez, de gêmeos, sem famílias nem namorado por perto. Podem imaginar como a cabeça fica a mil por hora com os “conselheiros” que me aparecem?! Por sorte tenho muita afinidade com meu médico, que sempre me acalma e esclarece minhas dúvidas. Mas a partir de hoje começo a dizer a data certa do nascimento dos bebês, meados de novembro, e também passo a acreditar num parto normal e numa amamentação suficiente para encher a barriguinha dos meus filhotes.
Comentário by Marcele — 26 de abril de 2012 @ 14:06
que bom que o relato te ajudou, Marcele! boa sorte com seus gêmeos! ; ) beijos!
Comentário by ciadasmaes — 26 de abril de 2012 @ 18:08