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25 de julho de 2011

ah, netos!

por vovó herta.

assim que júlia, minha netinha, pronunciou as primeiras palavras, investi numa espécie de lavagem cerebral, procurando quase injetar nela um espírito de solidariedade coletivista que nunca colou.

pode parecer meio prepotente, mas somos assim, quase todos: quando a gente entra em estreito contato com esses serezinhos, temos certeza que basta colocá-los naquela fôrma idealizada pela nossa fantasia de perfeição. mas quando colocamos a mão na massa…

se eu fosse enumerar os atributos de Júlia, junto com a beleza e o charme, incluiria o egoísmo. pois a bactéria, germe, semente, o gene egoísta, ou seja lá o que for, já está instalado quase soberano. agudo, crônico e, ao mesmo tempo, epidêmico.

parece que hoje em dia as crianças já nascem com a certeza que são simplesmente o centro do mundo e que todos os que as cercam nasceram para servi-las, que todas as coisas ao seu redor lhes pertencem.

fico me perguntando se isso é resultado do sentido e da importância que os brasileiros dão às suas proles, pois quando estive na Europa percebi que, lá, as crianças estão em quarto ou quinto plano, se tanto.

alguns psicólogos garantem que o egoísmo constitui a criança desde o princípio. já a antropologia quer nos convencer que os valores da cultura são decisivos, impregnantes.

o certo é que o nascimento do irmão fez o pequeno e protegido mundo da júlia desabar. isso também é epidêmico. e quando, três anos mais tarde, ela me pediu, quase suplicante:

- por favor, vovó, eu queria tanto ser egoísta! deve ser muito bom! só que nem a mamãe e nem o papai, e agora nem mesmo você, vovó, quer deixar eu ser egoísta…

e, numa imitação dulcificada de minha voz, ela disse:

- meu amor, é tão bom dividir!

quase não me contive. no entanto, não existe pior experiência para uma criança do que não ser levada a sério – se eu fosse dar uma daquelas minhas gargalhadas, seria o fim ou a decadência do meu prestígio.

é claro que o irmão aprendeu rapidamente o funcionamento das coisas. tanto que, quando estão brincando juntos, o que predomina é a disputa por algum objeto, na maioria das vezes sem a menor importância, e o diálogo se restringe a “é meu”, “não, é meu” ou, para variar, “é minha”, “não, é minha”. sabe aquele brinquedo, entre as muitas centenas, que nunca havia sequer sido tocado e que um dos dois descobre? imediatamente, para irritação dos adultos, vira o pomo da discórdia e sabe-se que não adianta nada ponderar ou simplesmente perder a esportiva.

dia desses propus:

- que tal a gente brincar de tive de uma ideia?

- que brincadeira é essa, vovó?

- quando seu pai era pequeno, ao invés de falar ‘tive uma ideia’, ele dizia ‘tive de uma ideia’. Então vamos fazer assim: eu comprei três livros novos para vocês e, como não dá para rachar um livro no meio, tive de uma ideia. quase sempre o daniel gosta do que eu escolhi para júlia e a júlia cisma de querer o do daniel. seria absurdo eu comprar dois de cada.

nessas alturas, o sermão já estava ficando longo demais. mas não tem jeito! e continuando:

- então, tive de uma idéia! vamos fazer uma biblioteca coletiva?

- e como que é isto?

- é muito simples: os livros passam a ser dos dois, ou melhor, de todos da casa, ou ainda, vocês também podem emprestar estes livros para priminhos e amigos, pros filhos da célia…

Sem ainda se dar conta direito do tamanho da reviravolta ou então por achar que poderia ser vantajoso para ele, daniel achou engraçado, mas a júlia nem tanto:

- ah não, vovó, isso não vai dar certo. não gostei nada desse tal de tive de uma idéia. eles vão rasgar, rabiscar, estragar os meus livros.

- mas como você pode saber disso se nunca emprestou seus livros pra ninguém?

- eu sei, eu sei! – gritou exasperada – um livro não é como uma escova de dente, ele pode ser usado por várias pessoas! tá bom, vovó, mas os livros vão ser mais meus do que do daniel.

- ah não! – exclama o Daniel, farejando prejuízo – e por que os livros vão ser mais seus do que meus?

- oh, irmãozinho – exclama ela, causticamente doce – é que as estantes estão no meu quarto e toda vez que você for pegar um livro, você vai ter que me pedir!

O que vou argumentar agora?

- lembram aquele DVD que passei pra vocês dos kamaiurás brincando? vocês viram aquele indiozinho dando com a maior alegria os ovos de tartaruga para seu amigo?

- mas por que que ele deu os ovinhos? o Ibama não proíbe que a gente pegue os ovos de tartaruga?

mudando rapidamente o enfoque, doutrinei:

- nas tribos eles são assim, não tem essa de é meu.

nossa! que argumentação mais furada… desisti da idéia de biblioteca coletiva. acho que eles não vão encampar. e fico de longe assistindo, tentando me manter distante. aquela do Ibama me deixou encafifada… mas logo as adoráveis pestinhas passam rapidamente de uma cena de acirrada disputa para outra de doce enlevo, pura harmonia. é assim mesmo.

a verdade é que nós, adultos falamos uma coisa e fazemos outra. ficamos nessa pregação de solidariedade, despojamento, mas na hora do vamos ver, damos os piores exemplos.

não é que o Daniel rapidamente absorveu e se apropriou de manobras e chantagens que permeiam os relacionamentos?! numa disputa vergonhosa, eu e minha irmã o colocamos numa sinuca de bico. não me lembro quem proferiu a sentença, mas, numas de medir sua preferência, uma ou outra ou as duas em sintonia perguntamos:

- daniel, de quem você gosta mais? da vovó herta ou da tia rose? não vale dizer que gosta das duas.

que vergonha! isto é lá coisa que se pergunte? ele nos encarou acuado, olhou longamente ora para uma ora para outra das duas babacas, como se quisesse ganhar tempo e, gargalhando, concluiu:

- de mim , eu gosto mais é de mim!

(foto: tawalker)


Filed under: — ciadasmaes @ 17:14

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