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31 de outubro de 2011

um tapinha não dói? e (muitas) outras reflexões…

um dos assuntos mais debatidos na internet materna, na última semana, foi o lançamento do livro “Tapa na Bunda – como impor limites e estabelecer um relacionamento sadio com as crianças em tempos politicamente corretos”, de Denise Dias, publicado pela editora matrix. nós não lemos o tal livro mas vimos a sinopse e uma entrevista com a autora, que foram suficientes para termos certeza de que não estamos cometendo o erro de julgar um livro pela capa (literalmente!). a indignação em relação ao título e ao conteúdo do livro foi meio que um consenso entre a maioria das mães. porque é muito difícil crer que ainda há quem defenda a eficiência e a legitimidade dos castigos físicos para educar crianças, né?

a questão não é só “bater ou não bater”. trata-se de escolher ou não escolher educar pela via do medo, da força do adulto que logicamente é sempre maior do que da criança. e fazem parte da educação pelo medo tanto a violência física quanto a psicológica: xingamento, humilhação, gritaria, ameaça, ridicularização etc. também são, junto com tapas, beliscões, safanões, apertões, violências que deixam marcas eternas e não criam pessoas melhores, não facilitam o relacionamento, não melhoram a convivência familiar. ao contrário.

existe o outro lado extremo desse comportamento autoritário que é o permissivo, o dos mimos e bens materiais em excesso pra compensar amor e carinho, falta de limite e de noção da realidade… e ninguém está aqui defendendo a permissividade no lugar do respeito imposto pelo medo. uma coisa não tem a ver com a outra. somos a favor de crianças que respeitem seus pais. e que respeitem a si mesmos, a seus amigos, ao próximo… e respeito é assim: a gente ensina com exemplo, ensina respeitando. e não com autoridade, força, poder, hierarquia, falando alto e dando tapas pra “mostrar quem manda”.

mas levando a reflexão adiante, começamos a perceber que dentro dessa questão há outras mais profundas e fundamentais pra pensar e repensar a educação nos dias de hoje e o nosso papel como pais e cidadãos do mundo.

a gente tem nas mãos o poder e a responsabilidade de criar, de ensinar, de dar amor e formar pessoas bacanas e preparadas pra viver no mundo. e aí chegamos no ponto: que mundo é esse? será que é pra esse mundo que queremos preparar nossos filhos ou será que podemos preparar nossos filhos pra ajudarem a fazer desse mundo um ambiente melhor, mais humano?

será que tem dado certo a educação praticada até aqui? por que dizem tanto que as crianças de hoje são “monstrinhos” sem limites? por que é que existem tantos adolescentes que cresceram se achando donos do mundo e não tem a menor noção de humanidade? serão esses os adultos de amanhã que queremos? por que os consultórios estão cheios de pais desesperados buscando fórmulas mágicas pra “domar” filhos que viraram “monstros”? por que as escolas passaram a rotular como “problemáticas” as crianças que não se encaixam num padrão? quem determinou esse padrão? por que medicamos nossas crianças e adolescentes com drogas pesadas ao invés de focar em questões mais profundas como a qualidade do ensino oferecido pelas escolas, a capacidade dos professores em engajar seus alunos através do interesse pelos estudos, a própria atenção dada pelos pais às crianças em casa? será que uma das causas para a situação ter chegado neste estágio não é a nossa cultura tão imediatista? será que toda a maravilha da tecnologia, do excesso de informação, da rapidez da comunicação não estão trazendo alguma mudança significativa também na nossa forma de educar com a qual não estamos sabendo lidar? será que não estamos nos transformando em pais e mães muito mais ansiosos do que a geração dos nossos pais? onde foi que o problema começou? onde está a nossa parcela de culpa – e muito mais do que isso: onde está a nossa coragem pra parar tudo, questionar e tentar fazer diferente?

colocar a culpa só nos pais – e principalmente nas mães – não resolve essas perguntas porque também somos frutos de um (relativamente) novo estilo de vida. sabemos que violência não educa e que presença permissiva também não, mas parece que existe algo maior relacionado à educação moderna, que vem da nossa cultura moderna ou pós-moderna…

e pelo que andamos notando nas discussões que rolam por aí, na imprensa, na internet, pelo Brasil e pelo mundo, esse “algo maior” talvez seja a peça chave pra começarmos a encontrar os novos caminhos para educarmos nossas crianças com mais verdade. e, quem sabe, as respostas para todas as perguntas que “jogamos” aí em cima.

vivemos num momento de extrema valorização do trabalho, em detrimento a todas as outras áreas da vida. a produtividade, a carreira, o dinheiro, a competitividade, a conquista de bens, de status parecem estar acima de tudo na vida dos adultos de hoje.

essa intensa relação com o trabalho gera, claro, falta de tempo. e também de tesão, de vontade, de disposição para a reflexão. todo mundo vive sempre correndo, trabalhando que nem louco, querendo resolver os problemas pessoais num piscar de olhos, tudo tem que ter solução rápida, mágica, eficiente, pra podermos trabalhar mais, ganharmos mais dinheiro, sermos mais reconhecidos por nosso trabalho.

e não nos damos conta de que educação é reflexão, estratégia, teste de discursos e táticas… exige tempo, dedicação, paciência, observação, mesmo sem garantia de resultados, porque afinal, os seres humanos não são máquinas e não respondem sempre do mesmo jeito. e como não há tempo, parece que vai tudo indo do jeito que dá e “seja o que deus quiser”!

junto com isso, em função do nosso estilo de vida e das pressões que sofremos, também vem uma forte cobrança por eficiência, por cumprir tarefas, por apresentar resultados. isso se reflete até na educação dos nosso filhos! os pais têm medo de errar, querem ser perfeitos em tudo, comparam seus filhos com os filhos dos outros e se preocupam com questões do futuro das crianças desde muito cedo. os pais parecem esperar resultados dos filhos desde muito cedo. tudo vira uma competição em que cada um procura se sair melhor que o outro. e estamos falando de vidas, de desenvolvimento, de formação de personalidades… qual será o impacto disso tudo na formação da personalidade dos nosso filhos?

parece que ainda não conseguimos parar pra pensar no que estamos vivendo. o mundo precisa de educação. todos precisamos de uma nova educação. e é uma nova educação a que surge – ou deveria surgir – de todos esses questionamentos. a culpa não é só nossa (pais, mães, educadores) mas a solução talvez esteja em nossas mãos se pudermos perceber o processo que nos trouxe até aqui e trabalhar por mudanças.

se até as famílias mudaram de formato, se as formas de se relacionar se transformaram radicalmente nas últimas décadas, se o mundo mudou tanto, por que é que ainda achamos que vamos ter sucesso criando e educando crianças da mesma forma como foram criadas nos séculos passados?

por que é que as famílias e as escolas ainda seguem modelos arcaicos de educação, disciplina, avaliação, cobrança de resultados e ninguém questiona nada? pelo contrário, a maioria ainda acredita que sair destes modelos significa arriscar. e a gente pergunta: será que o arriscado não é ficar onde estamos?

deixe seu comentário, sua impressão, sua opinião e ajude a enriquecer essa reflexão complexa…

(e não deixe de clicar nos links que colocamos no decorrer do texto: são todas referências que nos ajudaram a escrever este post, valem a pena ser lidas!).


Filed under: educação,reflexões — ciadasmaes @ 18:35

3 Comentários »

  1. Muito bacana o post!
    Fiquei feliz por ter contribuído de alguma forma pra esta discussão.
    Concordo que um novo modelo de educação precisa surgir (certamente, não é na base do tapa!) e este tipo de reflexão é super importante pra entendermos os caminhos e chegarmos, aos poucos, num patamar mais equilibrado e saudável pra pais e filhos :)

    Contem sempre com a minha participação nas conversas aqui.

    PS: Obrigada por linkar para o nosso site também. Sempre que quiserem participar lá, serão muito bem-vindas!

    Comentário by Claudia Obata — 1 de novembro de 2011 @ 19:52

  2. Vocês tocaram no ponto certo! Modelos de educação arcaicos, precisamos mesmo de uma nova educação, pensada e moldada para os filhos, pais e mães de hoje!
    Fico feliz em ver que não sou a única que sente que é possível, ainda que com muito esforço, construir esse caminho!
    Tapinha NÃO!!!
    BJos

    Comentário by Anne — 3 de novembro de 2011 @ 15:43

  3. Excelente o texto. Desde que sou mãe descobri que as linhas por onde andamos são extremamente tênues. Não usamos da violência, mas não permitimos tudo, coisa incrívelmente difícil, que não existe(ainda) fórmula e que só o bom senso, muito amor e criatividade podem reger. O modelo de respeito funciona muito bem em casa, ressalto como meu filho é respeitado quando exijo o mesmo respeito de volta… conversa, muita conversa… Idéias criativas, como um quadro com todas as coisas de bom que ele fez durante um mês… Creio que estamos na era da criatividade e é assim que a educação pode funcionar também. Mas claro, cada casa um caso, ficam aqui apenas algumas dicas que aqui funcionaram…
    Mas tapa não, tapa só traz remorso, revolta e incompreensão, muito melhor falar sobre o que é errado, do que um tapa mal explicado, a mensagem é muito mais clara saida da boca do que das mãos.

    Comentário by Carol — 4 de novembro de 2011 @ 12:32

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